A superdotação pode passar despercebida em salas de aula, mesmo quando o potencial é alto, por motivos que vão desde mitos sobre inteligência até práticas pedagógicas inadequadas.

Estudantes com altas habilidades frequentemente mostram comportamentos que confundem professores e coordenadores, e, sem avaliação adequada, podem ter rendimento baixo e sofrer psicologicamente.

O problema se agrava para meninas, que tendem a mascarar desempenho por adequação social, e para escolas sem formação específica, conforme informação divulgada pela CNN Brasil.

Por que a superdotação fica escondida

Nem sempre superdotação significa notas altas, por isso o mito da inteligência é um dos principais obstáculos para a identificação. Estudantes superdotados podem, inclusive, apresentar baixo rendimento escolar devido a diferentes fatores, como projeto pedagógico inadequado, dificuldades emocionais ou outros transtornos.

O Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, contabilizou cerca de 56 mil crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação matriculados na educação básica. Em 2024, eram pouco mais de 44 mil. Esses números mostram crescimento, mas ainda indicam subregistro, em função da falta de critérios e de formação docente.

Sinais como timidez, perfeccionismo, ansiedade e necessidade constante de desafio podem ser interpretados de formas opostas e, por isso, passar despercebidos. Como explica Francisca Chagas, especialista em altas habilidades, “Geralmente, é a primeira pessoa que convive diariamente com a criança em situações de aprendizagem. É no ambiente escolar que muitos sinais da superdotação podem ser percebidos pela primeira vez.”

O papel da avaliação e das adaptações pedagógicas

Para que a escola responda ao aluno com superdotação, é recomendada a realização de uma Avaliação Pedagógica Diagnóstica, procedimento que observa o aluno em diferentes dimensões. Segundo a especialista, “É um processo sistemático de levantamento e análise de dados, com o objetivo de compreender quais habilidades estão consolidadas ou em desenvolvimento e também entender as barreiras que interferem na aprendizagem”.

Com base nessa avaliação, a instituição pode elaborar um Plano Educacional Individualizado, com estratégias, metodologias e adaptações curriculares que respeitem o ritmo e os estilos de aprendizagem do estudante.

Os especialistas destacam que o professor não deve atuar sozinho nessa tarefa. “O professor não precisa e não deve caminhar sozinho. Uma escola inclusiva precisa incluir propostas em seu projeto pedagógico, investir em formação docente e discutir planejamentos coletivos.”

Como o gênero influencia a identificação

As expectativas sociais acerca do comportamento de meninas podem ocultar sinais de superdotação. De acordo com a psiquiatra Fabrícia Signorelli, “No contexto do país, soma-se o fato de que a maioria das crianças e adolescentes está inserida em escolas com pouco estímulo e sistemas de aprovação automática. Por isso, muitas vezes os superdotados não têm a oportunidade de demonstrar os talentos ou a superdotação. Dessa forma, não são nem identificados”.

Fabrícia também chama atenção para o mascaramento em meninas, explicando que “Parte do atraso não vem da menina se achar menos capaz, mas do fato de que o adulto ao redor simplesmente espera e observa menos esse perfil nelas, fazendo com que passem despercebidas. A expectativa de um comportamento mais quieto, obediente, organizado e menos ‘desafiador’ em sala de aula faz com que sinais que costumam chamar atenção nos meninos apareçam de forma mais discreta ou socialmente aceitável, tornando a identificação menos óbvia para o professor”.

O atraso na identificação pode aumentar vulnerabilidades. “Mulheres e meninas apresentam maior prevalência de depressão e transtornos de ansiedade, atribuída a mecanismos psicológicos, sociais e biológicos interativos, incluindo discriminação de gênero e sobrecarga de papéis”, alerta a especialista.

Consequências e caminhos para melhorar a identificação

Damião Silva, psicólogo e pedagogo, resume riscos e efeitos: “Anos de não identificação, mascaramento, pressão por adaptação e incompreensão do próprio funcionamento podem representar fatores importantes de sofrimento psicológico. Em alguns casos, a mulher chega à vida adulta tratando manifestações emocionais sem que sua superdotação tenha sequer sido considerada”.

Além da Avaliação Pedagógica Diagnóstica e do Plano Educacional Individualizado, especialistas recomendam formação continuada para professores, inclusão de propostas no projeto político-pedagógico das escolas e processos de observação sistemática em sala de aula, para que sinais diversos de superdotação não sejam interpretados apenas como problemas comportamentais.

Reconhecer a superdotação exige olhar atento, dados consistentes e práticas escolares que permitam ao estudante demonstrar potencial, sem estigmas e sem reduzir a identificação a notas altas.


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